A memória involuntária e a arte – entre amores, avôs, pacas e buritis
marcelo backes
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NUNCA BEBI CHÁ DE TÍLIA. Não aprecio, especialmente, madalenas. Mas também para mim chegou o dia em que percebi que muitos dos meus momentos de verdadeira felicidade estão vinculados a recordações e eventos do passado, de um modo geral localizados na infância – e eu diria que pelo menos com todos os melancólicos é sempre assim.

A cada vez que vou à casa de André Stock e Roberto Calmon, vejo uma obra de arte nova, e um dia me dei conta de que aquilo me lembrava algo do meu passado e do meu avô, meu avô da Linha Buriti. Em determinado momento da minha infância, na década de 1970, sempre que ia à casa do meu avô, havia um trator novo, um galpão a inaugurar, uma grande instalação agrícola a festejar. E foi por isso que, quando André e Roberto me mostraram Éguas noturnas de Julia Debasse, eu simplesmente parei, me perdi durante alguns segundos em pensamentos e – enquanto eles seguiam adiante –, comecei a viajar no quadro e logo saí montado, não na poldra da artista, mas galopei livre em meu coração, mergulhando na memória dos potreiros pretéritos do meu avô. Quando André e Roberto me chamaram, confusos em me ver assim em-mim-mesmado, eu acabava de estacar às margens do rio Sem Peixe, atrás de uns pastos, já na Linha Paca, tudo num Sul ainda sem norte.

Essa função da arte! A melhor!

Ah, se o Guimarães Rosa de tantos buritis e olhos diadorins dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto, tivesse descrito as Cataratas do Iguaçu, eu poderia achá-las tão bonitas... Sempre entendi tão bem porque Swann só se apaixona por Odette – ou então se dá conta de que está apaixonado por ela – quando vê nela a imagem da Séfora de Botticelli! E uma vez pelo menos, na minha vida, eu vi numa moça bela, tão bela, a encarnação das minhas italianas mais sublimes da mesma década de 1970. Se bem que Anna Karina era dinamarquesa…

Corpos, letras e alguns animais dá pano para a manga de muitas viagens. Algumas delas bem concretas, carnais. Ah, a Vulva metálica redonda de Franklin Cassaro em seu alumínio gostoso e bom de penetrar sempre me lança direto ao Movimento de esquerda II de Eduardo Kac, porque aquela moça está tão perto, mas tão longe ao mesmo tempo, sempre tão longe. E eu também sei que o Pó de tijolo de Brígida Baltar sabe virar muro, um muro pior do que qualquer muro, um muro que está dentro de nós, na cabeça de nós mesmos. Acho que foi Robert Musil quem disse algo no sentido de que inclusive a fé e o amor são apenas estados de espírito, mas que a contemplação cria para eles a imagem de um mundo inteiro.

A Coleção Calmon-Stock sempre me impressionou tanto subjetivamente, e objetivamente representa tão bem sobretudo a arte brasileira contemporânea, que eu citei pelo menos dois de seus quadros em meu romance A casa cai, cujo personagem central é, entre outras coisas, um colecionador de arte, um joão-de-barro casmurro que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito e, sem nem saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar e que conta inclusive a paradigmática história imobiliária da Zona Sul do Rio de Janeiro: enquanto ergue uma casa para sua mulher num tempo em que ninguém mais cozinha para ninguém, ele descobre que seu pai morto foi um dos construtores da cidade.

POIS À DETERMINADA ALTURA, esse personagem estaca diante de Deambulação e divagação de José Damasceno, que ele adquire porque não resiste num dia em que sai para comprar um tanque para a área de serviço, parando na galeria mais próxima e esquecendo de chegar à loja. E diz que realmente não havia o que fazer ante aqueles rastros coloridos recortados em miniaturas de papel, micropalmilhas italianas aos milhares, pequenas bases para os sapatos que herdou de seu pai, enchendo um quadro oco na parede, o oco de sua alma, enquanto ele caminha perdido por aí.

Em outro momento, o personagem para, estupefato, diante de Hildebrando de Castro e sua série de Janelas, observando sobretudo um díptico vermelho. É o da coleção de André Stock e Roberto Calmon. E o narrador diz:

Por trás de uma janela vermelha, parecia até que Hildebrando de Castro também estivera em nossa casa, na minha casa, na casa de ninguém, eu não sabia se via sombra ou se via pintura, se as diversas camadas eram da luz ou da arte, geometria e cor se misturavam num labirinto de sensações óticas que logo viravam dores no coração, porque eu sabia que a abstração geométrica disfarçava uma fachada real, e que por trás da janela havia uma casa, ainda que eu visse apenas outra janela, uma janela visível que dava para uma janela invisível. Eu tentava olhar para dentro e não via nada, não via a casa, será que havia casa, e via apenas a sombra que não era sombra, que era cor e era também sombra porque havia luz, uma janela por trás de outra janela. E nada da casa, que no entanto existia, devia existir, por trás de tantas janelas.

Tantão, Cabelo, Caldas (o Waltércio), Carneiro (o Rafael) e Chilindrón (a Marta); Barrão, Jordan e Centurión; Catunda, Espiridião e Salomão. Um time e tanto e eu nem citei todos os titulares, nem de longe, sequer um dos treinadores do catálogo, o de La Rocque, nas minhas pontes para a imaginação. Eu sempre fui assim, e a arte é matéria de existência mais importante do que a realidade para mim. Gosto muito de carne, não vivo sem ela, mas sei que é na fantasia que nós enchemos inclusive o bucho, como se dizia no meu interior missioneiro. Ademais, boa parte da vida da gente não acontece mesmo num âmbito fora do nosso alcance? As coisas que dizem respeito ao que vai acontecer conosco não estão sendo decididas num lugar bem longe daquele que é a comezinha realidade do quadrado em que estamos?

Talvez eu também tenha vivido, sempre tenha vivido, e tantas obras de Corpos, letras e alguns animais poderiam dar um exemplo disso, para repetir, diante dos petrificados cariocas do Arpoador e dos assombrados porto-alegrenses do Gasômetro, oh, as minhas duas cidades, aquilo que Oscar Wilde disse ante seus conterrâneos encantados com um pôr-do-sol qualquer: um Turner de segunda mão...


MARCELO BACKES (nascido em 23 de outubro de 1973, em Campina das Missões) é escritor, tradutor e professor da Casa do Saber. Doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Freiburg, na Alemanha, é autor dos romances O último minuto e A casa cai, publicados pela Companhia das Letras, entre outras obras. Organiza a coleção de clássicos fanfarrões, libertinas & outros heróis e a publicação da obras de Arthur Schnitzler no Brasil.