Como nascem as coleções?
aexandre ribenboim
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UMA GALERIA DE ARTE está longe de ser um lugar caloroso, daqueles que nos atiramos e ficamos à vontade. Normalmente silenciosas como bibliotecas, com suas altas paredes brancas que buscam sumir no infinito e uma iluminação cuidadosamente projetada para fazer as obras de arte saltarem das paredes, as galerias são frias.

Os principais clientes de uma galeria – os colecionadores de arte – não se importam muito com isso, pois são atendidos pelo nome e sobrenome pelo galerista e conhecem as obras antes das exposições. Se querem comprar algo, a galeria lhes oferece uma sala especial, onde um sofá, mesa de centro e uísque compõem o cenário para a realização dos negócios. Não é na galeria, portanto, que um novo interessado, um desconhecido, encontrará ajuda para trilhar o caminho de descoberta, elevação e crescimento que a arte contempla. Uma galeria não acolhe quem não coleciona. Os museus também não colaboram. Apesar de serem excelentes espaços para se ter contato com a arte e aprimorar o olhar, os museus são feitos para atender muita gente e o colecionismo precisa de uma aproximação individual, delicada, duradoura e profunda, e que respeite o ritmo do novo colecionador.

Encontros como feiras de arte, vernissages, exposições e leilões são espaços abertos, mas também herméticos, estranhos, ameaçadores para o iniciante. Contudo, é interessante notar que a comunidade ligada à arte, especialmente contemporânea, curte qualquer coisa que seja diferente. Arrisco dizer que um leigo poderia se sair bem numa vernissage se conseguisse transformar a sua ignorância em algo curioso, simpático e evitasse beber demais. Mas, em geral, circular nos eventos de arte não é confortável para quem não participa do mercado.

Além disso tudo, colecionar arte não é barato, o que afasta ainda mais os novos interessados. Ainda que haja dinheiro sobrando para adquirir obras de arte, nas suas primeiras compras o leigo terá que dar conta de dúvidas como: “será que estou pagando um preço justo?”, “será que o artista é bem reconhecido?”, “será que esta obra é boa mesmo?”. Essas dúvidas ocorrem mesmo que a compra se dê apenas por razões estéticas; digo, sem levar em conta o seu valor como investimento.

O que nos leva ao nosso título-pergunta: Como, então, surge uma coleção?

Muitos colecionadores de arte iniciam sua coleção “pegando” o gosto pela arte de outra pessoa. Alguém os ajuda a dar os primeiros passos: uma amiga artista, um namorado que estudou história da arte, um colega de trabalho que é colecionador. Mas isso é apenas uma centelha que se apaga fácil, pois colecionar demanda esforço, disposição para ir, ver, viajar, perguntar e estudar.

UM COLECIONADOR PODE comprar arte seguindo seu próprio gosto, mas estará perdendo uma parte bem interessante que é a conexão da arte com a literatura e com a filosofia, o seu diálogo com as questões da vida dos artistas e de seus contemporâneos, a beleza das visões alternativas do mundo. Colecionar arte é também colecionar informações, é passear pelas referências em busca de saber mais e encontrar sentidos, relações.

A Coleção Calmon-Stock, que o público poderá ver agora em Corpos, letras e alguns animais se presta, maravilhosamente, como exemplo desse caminho. Trata-se de uma coleção que se formou a partir de muitos movimentos, uma busca de informações aqui, um contato ali e uma dica acolá, realizados pelos colecionadores contando apenas com seu amor pela arte e a disposição incansável dos amantes. Não há, nesta coleção, o dedo especialista de curadores, consultores e outros entendidos. Há, sim, muita curiosidade e ouvidos atentos, muito interesse pelo universo dos outros, especialmente dos artistas.

Aos poucos, os colecionadores de Corpos, letras e alguns animais garimparam artistas jovens e nem tão jovens, mas que ainda possuem obras acessíveis, e foram desvendando as influências desses artistas, buscando fios de meadas, sentindo o diálogo das obras, a ponto de criarem uma unidade que agora se vê exposta nas lindas páginas deste livro. A Coleção Calmon-Stock e sua trajetória nos ensina que as coleções não precisam de muito para surgir, apenas desejo.


ALEXANDRE RIBENBOIM é empreendedor e consultor. Nessa de ser consultor, trabalhou bastante com o mercado de arte e começou a sua própria coleçãozinha.