Encadeamentos desviantes
Omar Salomão
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Não há interpretação final (...) porque a última palavra
do poeta não é uma palavra final. — Octavio Paz

   

as linhas formam letras

que desenham

corpos que se

colam feito

palavras

   

Dois corpos. Dois meninos segurando as mãos atravessam a calma Avenida Central. Rio, início do séc. XX. A foto em preto e branco, pendurada no corredor, recepciona quem abre a porta do elevador. Rio, hoje capital de si apenas e sua avenida central é chamada Rio Branco (diplomata que consolidou as fronteiras). Rio, início do séc. XXI. Avenida Rio Branco fechada para obras. Entro no apartamento com Fernando de La Rocque – artista do corpo suas pinturas acumulam corpos no mais espetacular dos êxtase sua boca cria corpos e dos bueiros faz brilhar o mais clandestino dos corpos. A escolha de nós dois como organizadores visuais desse livro já indica pistas dos assuntos que reverberam com maior intensidade nos olhos atentos que costuraram essa coleção particular

(particular: que não é de uso geral do público; individual, pessoal, íntimo; peculiar, singular, especial; minucioso; fora do comum | coleção privada do convívio íntimo. Xícaras, livros, cadeiras, marionetes, cachorro. Fluído, por isso, vivo. Vívido e vivido.)

corpos e letras que se espalham pelas paredes, móveis e chão. Na caveira que morde o lápis sobre os compêndios das estantes. Obras e vida se misturam, como deve ser. Corpo e letras. Medicina e filosofia. Ato e atuação. Dois corpos descendo o rio e suas curvas e correntezas. Toque, cor e silêncio. O silêncio inquieto da floresta e seus animais.