Por entre os rastros do contemporâneo
paulo cesar duque-estrada
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DENTRE AS INCONTÁVEIS possibilidades que se abrem quando se transita pela Coleção Calmon-Stock, uma delas está em nos vermos, de súbito, arremessados a um lugar em que, paradoxalmente, já nos encontramos.

As obras aqui reunidas pelo título Corpos, letras e alguns animais, nos colocam em sintonia com um acontecimento que imprime certo modo ou traço distintivo ao existir contemporâneo. Acontecimento que não se deixa registrar no quando e onde de sua ocorrência – o que, aliás, é próprio a todo acontecimento “digno do nome”, como diria Jacques Derrida –, mas que se propaga por toda parte, no transbordamento, para não dizer no colapso, da função meramente demonstrativa dos signos.

Lado indissociável do progressivo apagamento de sua função, ou pretensão, de pôr em evidência, tornar patente ou fazer ver alguma coisa, os signos acabaram por liberar uma outra dinâmica que, no entanto, sempre esteve ali, operando neles mesmos e através deles mesmos, como a sua realidade mais própria. Dinâmica de um voltar-se, a se perder de vista, para o que, desde sempre, já se foi, e que, portanto, nunca esteve presente, não se encontrando, jamais, como uma coisa dada – no passado, no presente ou no futuro. Sobrevém, nesta dinâmica, um duplo retorno. Retorno da indicação, recalcada pela autoridade da demonstração, da manifestação, da revelação, do fazer ver. Retorno do talvez, constrangido pela autoridade, ou autoritarismo, da certeza.

E configura-se, então, um modo contemporâneo de ser ou de estar no mundo.

a coleção calmon-stock nos situa, ou re-situa, nesta abertura do contemporâneo. O que não quer dizer que, com ela, nos encontramos em meio a uma celebração, em pintura, do niilismo, mas sim da veracidade nua e crua. Aqui não se transita pelo vazio do nada, mas pelos sinais, pelas marcas, rastros e indicações deixados como restos que nos afetam e nos mobilizam; “restâncias” de uma presença jamais presente e que, sempre e mais uma vez, nos solicita e nos põe a caminho. Veracidade, portanto, que também não se deixa substituir – que jamais se interrompe, jamais atinge um ponto final ou de chegada – no encontro com algo supostamente verdadeiro. Veracidade solta, in progress, livre da autoridade, ou do autoritarismo, do verdadeiro.

Veja-se, por exemplo, Fernando de La Rocque em o Cortejo do Pavão e Ninho do Pavão (díptico), ou ainda em Anatogeografia. Ali uma erótica marcada menos pela posse e mais por uma espécie de bonheur des corps se espalha e se condensa dando forma a uma rede de relações. As unidades que dão estabilidade à forma como um todo só existem enquanto unidades relacionais, elas mesmas só existindo enquanto interligadas às outras unidades relacionais. Uma acolhida mútua, e não a apropriação do outro, parece ditar o motivo configurador das totalidades que de La Rocque retrata em pintura. Totalidades, vale notar, que se configuram muito mais pela dispersão das relações entre suas unidades do que propriamente pela reunião das mesmas em um todo presente e autoidêntico.

E O QUE DIZER DOS INSETOS de de La Rocque? Symbolons surpreendentes, vindos dos subterrâneos urbanos, possibilitadores de um reconhecimento narcísico. Afinal, quem – ou, talvez, o quê – os tornou, tais criaturas, assim tão especiais? Regalo do eu, diante do diferimento mútuo entre o refinado e o abjeto, no cintilar rastejante de antenas, pernas e asas cascudas. Ver a si mesmo no meio da noite ao cruzar com uma barata cintilante; prazer do reconhecimento proveniente de bueiros, canos e ralos. Maravilhamento tão elevado quanto diminuto; sublime e irrisório, love is narcissistic.

Mesmo que dispuséssemos aqui de todo o espaço do mundo, muito ainda haveria o que dizer da obra de de La Rocque e de todos os outros artistas que participam desta coleção. O próprio título, aliás, é bastante representativo da dinâmica que aqui, nestas poucas linhas, pretende-se indicar, na composição das obras. Dinâmica, uma vez mais, de um voltar-se, sem fim, para o que sempre já se foi. Sobre cada uma de suas palavras, “corpos”, “letras”, “animais”; elas denotam um encontrar-se decaído, destacado, arrancado, divorciado, respectivamente, de quem ou de quê?, de qual língua?, de que meio ou habitat? As figuras de corpos, letras e animais são aqui rastros, indicações de uma origem, desde sempre, não mais presente. Indicações que dão lugar a intermináveis formas de restituição, isto é, de interpretações, comentários, indagações, percepções, transações imaginárias, utilitárias, decorativas, mercadológicas etc.

É o que ocorre com os utensílios de Omar Salomão, marcados por inscrições textuais fragmentadas, igualmente arrancadas de seu suposto contexto de origem. E é todo um arrebentamento da representação que ali se verifica em um só movimento: emancipação do que, na tela, se inscreve e se projeta, para além de todo enraizamento, como sentido interditado à sonolência dogmática de toda e qualquer compreensão. Movimento este, por sua vez, que é intrínseco ao acontecer de uma abertura.

Abertura na qual e graças a qual se põe em marcha o ir a um encontro sempre e já interditado. Paradigma das relações, potência da veracidade, o irrepresentável desta abertura se epifaniza na enorme Vulva metálica redonda de Franklin Cassaro. A violência desta dinâmica deixa-se captar nos animais e nas miniaturas de Camila Soato, em suas figuras cruelmente híbridas, cunhadas à fantasia, faca e sangue, arremessadas a um “para além” do que quer que se encontre dado, pela força de uma pulsão sexual igualmente desprendida, alucinada, “fora dos eixos”, a um só tempo mortal e plena de vida.

Falta-nos espaço para falar do que poderíamos chamar de uma descontextualização originária, sutil e radical, encontrada nas figuras de Gabriel Centurión. Ou ainda nas refinadas recombinações propostas por Julia Debasse. E nada mais sintonizado à experiência contemporânea do que a profusão de singularidades picotadas em Deambulação e divagação de José Damasceno. Igualmente nos traçados sobrepostos de Cabelo, ou ainda no instigante e incômodo Retrato de Monica Piloni, um monumento à força traumática e inesgotável da restituição.

E tantos outros que não serão mencionados aqui, por pura e simples razão de espaço e aos quais, desde já, peço perdão pela enorme injustiça. Haveria tanto a dizer mesmo em relação aos que aqui foram nomeados. De qualquer modo, mesmo com todo espaço, ainda assim, não haveria espaço.

Diante de Corpos, letras e alguns animais, há muita travessia a se fazer.


PAULO CESAR DUQUE-ESTRADA é professor do Departamento de Filosofia da puc-Rio. Doutorado em filosofia (Boston College) e Pós-Doutorado na New School University (New York). Trabalha e possui publicações nas áreas de fenomenologia, hermenêutica e desconstrução.