Um espaço interno no espaço interno no espaço interno, no Rio – obras de arte como o lado de trás das coisas
markus gabriel
PT EN

OBRAS DE ARTE são surpresas em um sentido eminente. O que obras de arte nos revelam é que os objetos que se nos mostram comumente familiares possuem um lado de trás sinistro, estranho. É apenas o lado de trás dos objetos, invisível em nossa vida, que em condições normais completa o recalque do estranho, do outro e do surpreendente. Sem seu lado de trás, os objetos seriam tão pouco reais e vivos quanto seres humanos apenas com a metade da frente de seu corpo.

Quando, em 2015, dei um minicurso sobre o Realismo na puc do Rio de Janeiro, em meio aos jardins da universidade, falei ininterruptamente do verde da floresta (mata), que se podia ver da sala de aula. O Brasil tem, de um modo geral, um verde muito próprio, que desde minhas primeiras visitas, há dez anos, ficou marcado em mim. Mas a floresta é tão ambivalente quanto seu signo. A floresta dá vida, mas também mata: a mata mata, um jogo de palavras que me ocorreu enquanto palestrava. As palavras podem nos surpreender, porque jamais nos tornamos completamente senhores de seus significados. Pois os outros sempre podem nos compreender de modo diferente. O que se compreende quando se compreende o significado de palavras ou declarações é algo que os outros podem compreender de outro modo. O significado pode se deslocar.

É o que acontece com os objetos que emergem em obras de arte.

Paulo César Duque-Estrada me “desencaminhou”, em 2015, ao apartamento maravilhoso dos colecionadores da Coleção Calmon-Stock, que haviam nos convidado. Eu sabia que eles eram conhecedores de arte, mas não imaginava que abrigassem uma coleção tão representativa. Passo a passo, foi ficando claro para mim, entre comida e vinho em profusão – e cada vez mais embriagado e mergulhado na conversa sobre o Rio, a arte e a filosofia –, que em cada um dos cantos do apartamento se apresentava uma surpresa, um acontecimento.

Fernando de La Rocque eu já conhecia, fiquei, pois, tanto mais feliz em ver obras dele naquela noite. Sua arte sempre nos ensina coisas novas sobre cores e linhas. Seu coral de canudos de plástico, por exemplo, transporta a mensagem ecológico-política não apenas de que nossos mares em pouco serão constituídos mais de material plástico do que de material natural como também de que estamos destruindo os corais de maneira definitiva. A obra também apresenta qualidade estética na medida em que os canudos de plástico podem ser entendidos como pinceladas tridimensionais que de La Rocque, com seu arranjo, varia em um espaço vetorial infinito. Obras de arte sempre dão mais a pensar do que já se pensou, o que é apresentado de modo especialmente paradoxal no Caderno de Anotações de Omar Salomão, que contém coisas que ainda serão pensadas, mesmo – e tomado com exatidão como obra de arte –, que o caderno não contenha absolutamente nenhuma ideia determinada de modo nítido e com isso risque duplamente sua própria mensagem.

Naquela noite prestei atenção pela primeira vez nos trabalhos de Camila Soato. Tomemos como exemplo O cavalo do cão assim como suas Feiticeiras 8 e Feiticeiras 10. Um cão, é o que se pensaria normalmente, não pode ser dono de um cavalo, conforme a gramática do título afirma. Mas a obra ultrapassa ainda uma outra fronteira. Pois o cavalo, do qual se fala no título, não é um cavalo normal, mas sim um cavalo de madeira, que em vez de cascos tem rodas. Por certo o cachorro também não é um cachorro normal, mas sim um cachorro pintado. Cachorros pintados não têm lado de trás. Por isso não há exatamente uma resposta à pergunta sobre o aspecto, em seu outro lado, do cachorro pintado. Qualquer outro ângulo de visão do cachorro estará nos olhos do observador. Para que não se caia em nenhuma ilusão acerca disso, a pintura mostra rastros nítidos de ser pintura: a crina do cavalo, mas também as sombras mais realistas nas rugas do cão mostram de maneira nem um pouco dúbia que aqui foram usados pincel e tinta. O caráter surpreendente da obra não pode ser reduzido nitidamente ao fato de que aqui um cão cavalga um cavalo de madeira. Isso seria uma interpretação amenizadora, que deixa de lado o fato de um cão que não é comum estar sentado sobre um cavalo incomum. Também as Feiticeiras mostram a força mágica do pincel que identifica a artista como maga, que consegue arrancar nova vida do nada, ao qual não são impostas quaisquer fronteiras sexuais.

TAMBÉM TOCOU MEUS OLHOS a atualização reescrita de Francis Bacon na obra de Gabriel Centurion. A estranheza que a esquizo-pintura de Francis Bacon nos impõe é aqui complementada com caretas carnavalescas, o que se torna explícito em uma obra como Turma do parquinho.

O Retrato de Monica Piloni seduz pela elegância do rosto apenas aparentemente ausente. Um olhar exato percebe que não falta nada nele. Pois todo o rosto encontrado em uma obra de arte é como veludo disposto sobre um espaço interno vazio, cujas dobraduras são o tema da investigação.

O corpo de uma obra de arte é sempre vazio, porque ele se apoia a corpos que estão habituados apenas à primeira vista. O próprio corpo parece, a cada sujeito, especialmente íntimo e familiar. Mas as obras da Coleção Calmon-Stock nos mostram que isso é uma ilusão.

Uma ilusão é a distorção de uma realidade dada. Ilusões jogam com algo que não é ilusão: por exemplo com o próprio corpo, ao qual estamos vinculados por tanto tempo enquanto existirmos na condição de seres vivos. Nós somos encarnados constitutivamente. Mas deixamos de ver o lado de trás do nosso corpo, porque sempre o conhecemos apenas através da perspectiva interna. É por isso que parece incômodo ouvir a própria voz, ver uma imagem de nosso corpo ou pegar-nos de surpresa refletidos em um espelho. Nós não nos conhecemos como outros nos conhecem. Isso significa que estamos essencialmente ocultos a nós mesmos, porque os outros sempre conhecem muito mais de nós do que nós próprios. Precisamos encontrar os outros e nos deixar surpreender por eles.

Uma surpresa assim aconteceu comigo quando pude desfrutar a hospitalidade de meus novos amigos brasileiros. Pois eles tornaram acessível a mim uma vista interior do Rio e sobre o Rio, bem além da Lagoa e de Ipanema. Essa vista interior com varanda tinha, de sua parte, vistas interiores. Pois em seus espaços contêm as obras de arte da Coleção que com este catálogo se torna acessível ao público. As obras de arte por sua vez possuem seus próprios espaços internos. Elas se comentam mutuamente. Com isso, o espaço de exposição, unido à hospitalidade e à verdade, apresenta uma estrutura fundamental infinita: quanto mais profundamente mergulhamos em uma verdade, tanto mais nítido se torna para nós que existe um outro modo de contemplar objetos cuja superfície consideramos conhecida. Mas a verdade é que nada nos é realmente tão conhecido quanto nos parece. E essa verdade é posta em obra na obra de arte.


MARKUS GABRIELÉ é filósofo e professor alemão. Leciona na Universidade de Bonn, é diretor do Centro Internacional de Filosofia e autor do best-seller internacional Por que o mundo não existe, publicado no Brasil pela Vozes em 2016. Conferencista internacional, também publicou no Brasil, junto com Slavoj Zizek, Mitologia, Loucura e Riso. A subjetividade no idealismo alemão (Civilização Brasileira, 2014) e O sentido da existência, por um novo realismo ontológico (Civilização Brasileira, 2016).